QUANDO EU SOUBE DA CONDENAÇÃO DE LULA Notícia postada em 27.07.2017
Revista Piauí

Trinta e um correligionários, fundadores do PT, ex e atuais companheiros de luta política contam onde estavam, no que pensaram quando souberam da notícia e o que imaginam ser o futuro do partido.

POR BÁRBARA ROCHA

Foi num domingo, 10 de fevereiro de 1980, quando foi assinado o manifesto que deu origem à fundação do Partido dos Trabalhadores. Intelectuais, operários, militantes de esquerda, integrantes de movimentos de base da Igreja Católica estavam reunidos no auditório do Colégio Sion, em São Paulo, onde ouviam em êxtase o discurso engajado, emocionante e inspirador de uma liderança inconteste: o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, Luiz Inácio Lula da Silva, que se apresentava como representante “da classe explorada pelo sistema capitalista”. A ideia de um partido castiço, livre do ranço da ditadura, dos conchavos da velha política, comprometido com a causa dos mais desassistidos, era a promessa – e a possibilidade real – de um novo futuro.

Nas três décadas seguintes, Lula se tornou uma figura política de proeminência internacional. E o PT acumulou 1,5 milhão de filiados, governou a nação por treze anos, esteve à frente de prefeituras e governos estaduais em todos os rincões do país, promoveu a maior distribuição de renda da história e também o maior escândalo de corrupção que se tem notícia no mundo.

Trinta e sete anos separam aquela manhã de fevereiro de 1980 do dia 12 de julho de 2017, quando o juiz Sérgio Moro condenou Lula a quase dez anos de prisão pelos crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro. A acusação é de que ele foi presenteado pela empreiteira OAS com um tríplex no litoral de São Paulo em troca de favores na Petrobras.

A repercussão da condenação de Lula bateu forte em quem o conheceu de perto. Durante dez dias, 60 pessoas que conviveram com ele ou participaram da história do partido foram contatadas pela reportagem. Apenas 31 deram declarações sobre o caso. O que disseram:

Longe da casa onde mora na cidade que é o berço político de Lula, Soares leu em Recife a notícia da condenação em primeira instância do ex-presidente. Sem surpresa, o autor do desenho da bandeira do partido direcionou a primeira reação ao juiz Sérgio Moro: “Ele está a serviço da CIA, qualquer ato processual ele vai para os Estados Unidos prestar conta. Por que um magistrado de primeira instância precisa ir para lá mostrar seus feitos?” Moro, acusa Expedito, faz “perseguição política” e “joga com a mídia”. Por isso, resolveu divulgar a sentença logo após a votação da nova Lei Trabalhista: “Ele podia ter feito isso [anunciado a sentença] desde o mês passado. É um falastrão!”

A sentença não mudou a certeza do petista de que Lula não adquiriu o tríplex no Guarujá com privilégios da OAS: “Está mais do que provado que foi uma intenção de compra. Como se pode dizer que foi propina? Não se concretizou!”. E não tem dúvida sobre o futuro do partido: “O PT não é o Lula, é uma ideia, um sentimento, uma coisa muito maior.”

O ex-torneiro mecânico disse que a sentença era previsível. “Na luta de classes, o inimigo pode criminalizar ou até assassinar. É a lógica deles.” Para o petista, que soube da condenação do ex-presidente em primeira instância pela internet, ainda que Lula consiga provar inocência, outros serão acusados.

Se Lula for detido, a luta vai continuar – como aconteceu quando ele foi preso em 1980, durante a greve de 41 dias dos metalúrgicos, lembrou. “O futuro de um partido não depende de uma liderança, mas do seu programa e do seu projeto de país. O partido só morre quando perde a perspectiva histórica. São as contradições da sociedade que formarão líderes a cada momento.”

Desvinculou-se da sigla em 1988, mas o distanciamento não reduziu o desânimo de Gilson Menezes ao receber a notícia da condenação do ex-presidente Lula, por meio de uma amiga jornalista. “Fiquei muito aborrecido, chateado e triste. Não consigo colocar na minha cabeça que o Lula seja uma pessoa corrupta.”

Menezes faz uma ressalva para o Instituto Lula, que pode ter recebido dinheiro de empresários como “presente” pelo desenvolvimento do país. “O Instituto, querendo recurso para ampliar, acabou aceitando, mas tem que sobreviver com contribuição de militantes de maneira transparente, senão quando for refletir já é tarde.” Se Lula for preso, o PT vai precisar de autocrítica para seguir em frente, disse o ex-petista. “A filosofia do partido continua, mas o ser humano é passível de erros.” Hoje no PDT, Menezes passou pelo PSB e pelo PMDB.

“Eu não te falei que ele ia ser condenado?”, disse o metalúrgico aposentado Nelson Campanholo, que soube da sentença do juiz Sérgio Moro algumas horas depois do anúncio. Padrinho de casamento de Lula e Marisa Letícia, Campanholo tinha certeza da condenação quatro dias antes, quando conversamos. O ex-sindicalista fez outra previsão há cerca de um ano. Alguns meses antes do ex-presidente tornar-se réu na mesma ação em que Moro agora condenou-o a mais de nove anos de prisão, Campanholo profetizou a prisão do ex-companheiro de Sindicato dos Metalúrgicos numa longa conversa que tivemos em torno das denúncias de corrupção que rondavam Lula. “Ele vai ser preso”, previu.

A decisão de Moro, disse o ex-sindicalista, é exclusivamente política: “O problema não é a condenação, eles querem cassar o mandato dele. Não precisa ser político nem inteligente para saber disso.” Mas o PT e a população irão às ruas reivindicar Justiça para o ex-presidente. “Acho que agora o povo vai para a rua para valer, até porque ainda tem segunda instância, terceira instância… Acho que só pode melhorar!”

O ex-deputado federal eleito em 1983 tem “certeza absoluta” da absolvição do ex-presidente na segunda instância. O ex-sindicalista nem cogita falar em prisão do líder petista: “Não acredito que a Justiça poderá cometer equívoco tão grande.”

Djalma Bom soube da notícia da condenação de Lula pela tevê. “Não foi uma decisão jurídica, mas sim política, na tentativa de inviabilizar a candidatura do Lula”, acusa. Um dos fundadores do PT, ao qual segue filiado, pondera: “Não foi o partido que cometeu erros, mas pessoas, aceitando dinheiro de caixa dois, por exemplo. O projeto do PT está muito enraizado na sociedade brasileira.”

Bem-humorado, Vladimir Palmeira atendeu ao telefone na noite do dia 12, horas após seu filho informá-lo sobre a condenação de Lula. O professor, que participou da fundação do PT e desfiliou-se da sigla em 2011, se disse surpreso com a decisão do juiz Sérgio Moro. “Esperei que ele fosse ser absolvido. Agora, parece que não vai ser preso, adiante pode ser, mas acho que a condenação para na segunda instância.”

Independentemente das próximas etapas do processo, Vladimir decretou o fim do PT: “Como partido de esquerda, acabou, pode subexistir como o PMDB, um centrão.” Tanto o PT quanto o PSDB, disse, são expressões políticas que começam a ficar ultrapassadas. “A desgraça é que não tem outros”, completa, com uma sonora gargalhada.

O gaúcho, petista veterano, recorre ao poeta Mario Quintana para explicar o sentimento sobre o futuro do partido após a condenação de Lula: “Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o. Com ele ia subindo a ladeira da vida. E, no entretanto, após cada ilusão perdida, que extraordinária sensação de alívio!” Perder a ilusão, disse Dutra, é positivo. “Mas não se pode perder a esperança no PT como um partido que não surgiu de cima para baixo, embora tenha deixado de refletir pela governabilidade, o que facilitou a urdidura do golpe”, disse o ex-governador com voz grave.

Dutra estava em uma atividade na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul quando soube da sentença do juiz Sérgio Moro. Um dos principais políticos do PT e do estado onde atua, o petista reconhece que o partido não é apenas vítima. Não há mágica ou redentor que salve a sigla sem uma reflexão mais profunda, afirma. “Nem mesmo o Lula pode ser a saída para o partido. Não é apenas uma pessoa que tem que retomar e requalificar a relação com os movimentos sociais.”

Foi bem longe de suas atividades na Câmara dos Vereadores de São Paulo que o veterano petista soube da sentença do juiz Sérgio Moro. Desde a primeira semana de julho, Eduardo Suplicy recolheu-se em uma vila de pescadores na praia de Picinguaba, no litoral norte de São Paulo, para escrever seu próximo livro. “Essa notícia me entristeceu, acho que o Lula não merece isso. Tinha expectativa de que o Moro pudesse reconhecer.”

Suplicy faz coro aos que enxergam motivações políticas na decisão do juiz, uma vez que Lula lidera pesquisas de intenção de voto para as eleições de 2018. “Há que considerar a proximidade do juiz Sérgio Moro com figuras do PSDB e de outros partidos que preferem que o Lula não seja eleito presidente. Ainda bem que a Justiça brasileira tem outras instâncias”, disse o vereador mais votado de São Paulo. Suplicy não tem dúvida que o ex-presidente continuará a ser extremamente forte na história do PT. “Ele é o presidente de honra do partido e uma pessoa muito querida pelo povo brasileiro, e é o nome com a maior aceitação para ser o Presidente da República.”

Deputado federal pelo PSOL (RJ), Chico Alencar soube da condenação de Lula pelas redes sociais, durante sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) que debatia a denúncia contra o presidente Michel Temer. A surpresa foi o tempo de pena, e não a condenação em si. “É aquela história: o que não está nos autos não está na vida. Era um apartamento de ninguém. Com a fragilidade de provas, esperava que a pena fosse mais leve”, contou o parlamentar com a voz rouca, prejudicada pelos acalorados debates da CCJ.

Desvinculado do PT há 12 anos, partido ao qual foi filiado por quase duas décadas, Chico Alencar lamentou a possibilidade do ex-presidente ir para a cadeia: “Achei que a minha cota de decepção com o PT tinha esgotado desde que dolorosamente deixei o partido, mas a condenação dá uma tristeza. A maior liderança da minha geração correr o risco de terminar encarcerada é deprimente.” Para ele, o partido perdeu a oportunidade de sobreviver para além do Lulismo. “Tornar o Lula um mártir, um herói é insuficiente para a reconstrução do projeto político do PT.”

“Eu vi como mais uma notícia contra o Lula”, contou o senador Paulo Paim (PT-RS), que recebeu a notícia nos corredores do Congresso Nacional. Mas o impacto da notícia não é tão preocupante, disse o senador, porque a decisão judicial em primeira instância não é definitiva. Ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas, Paim é um dos fundadores da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e filiou-se ao PT em 1985.

Caso a prisão de Lula seja confirmada e aconteça antes das eleições, Paim aposta que Lula estará para o Brasil assim como Nelson Mandela esteve para a África do Sul. “Vai ter movimento em todos os países pela liberdade do Lula. Já que a gente está vendo o que está acontecendo e o que aconteceu com todos aqueles que comprovadamente roubaram: estão soltos e os que não estão soltos vão ficar amanhã ou depois. E como é que vai explicar que somente o Lula está preso?”, questionou o parlamentar.

O otimismo com o futuro do PT está atrelado à decepção crescente da população com o governo. Diante da “lambança que o governo vem fazendo, o PT está crescendo como nunca”, disse. Nessa conta, ele soma a reforma da Previdência, que vem gerando insatisfação. “Eu percebo que, naturalmente, as pessoas irão se deslocar para o campo de centro-esquerda, pois estão vendo que a direita está cometendo crime para todo lado.”

O deputado estadual Luiz Fernando Mainardi (PT-RS) se deslocava para uma reunião na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul quando ouviu a notícia da sentença de Lula no rádio do carro. Formado em direito, não se surpreendeu, e fez críticas à condução do processo pelo juiz Sérgio Moro. “O julgamento já estava feito desde o momento em que o juiz que deveria julgar se constituiu em parte do processo. Se o sistema judicial fosse mais sério, Moro já teria sido afastado. Não pode ser julgador e acusador ao mesmo tempo.”

Na segunda instância, aposta o deputado gaúcho, Lula será absolvido por inconsistência de provas – como aconteceu com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. O que o partido deve fazer, prega, é focar-se em três ações: “Solidariedade ao Lula, resistência aos ataques aos trabalhadores e debates que apontem para uma conciliação de classes.”

Informado da sentença do juiz Sérgio Moro por uma mensagem de WhatsApp de um amigo, o ex-líder estudantil Geraldo Sardinha já estava preparado. A condenação anunciada por Sérgio Moro foi sinalizada desde o primeiro afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, afirma, com articulações internas e externas para que Lula não se candidate e vença a corrida presidencial de 2018. “O que deixa a gente revoltado é que [a condenação] é puramente política e selecionada. Fico triste não só pela (possibilidade de) prisão do companheiro Lula, mas por tudo que fizemos, conquistamos. Pagamos caro, fomos torturados, exilados”, relembra.

Hoje apenas eleitor do PT, ele acredita que Lula vai acabar sendo preso em alguma instância do processo – “está dentro dentro do projeto do PSDB, império da burguesia brasileira”. Mas o PT resistirá, especialmente, disse ele, pela nova presidente do partido. “Gleisi Hoffmann é mil vezes melhor que o Rui Falcão. Essa companheira está dando uma reoxigenada no partido e, além disso, em momentos de crise surgem novos líderes.”

Petista por 25 anos, o deputado federal Ivan Valente participava da sessão da Comissão de Constituição e Justiça que debatia a denúncia contra Michel Temer quando soube da condenação do ex-presidente Lula. “Fico triste [com a condenação] porque impacta a esquerda.” Hoje no PSOL, Valente fazia parte do grupo considerado “a esquerda do PT”, linha de oposição a Lula dentro do próprio partido.

Mesmo sem ver justificativas consistentes para a condenação do líder petista, o parlamentar disse que Lula “conseguiu construir sua própria desconstrução”. “A gente antevia problemas no PT, como tipo de financiamento, alianças e presidencialismo de coalizão.

Ainda que Lula seja preso, ele acredita que o PT seguirá como um grande partido institucional, embora o ideário inicial da sigla já tenha se perdido. “O imaginário que o PT criou na população da transformação social, inclusive da visão socialista, não existe mais. Nem um governo Lula empolgaria como já empolgou na década de 80, porque eles não mudarão o programa e não fizeram uma autocrítica dos erros.”

O cientista político José Álvaro Moisés encerrou seus dez anos de militância após as eleições de 1989. Hoje, acredita que há muitos indícios de que Lula não seja inocente, como os que aparecem nas delações da Odebrecht e dos irmãos Batista. Para Moisés, foi nos governos de Lula e Dilma Rousseff que o sistema de corrupção se consolidou no Brasil: “O esquema foi montado com dirigentes partidários, executivos de empreiteiras e burocratas da alta hierarquia de estatais. Por isso, achava que a condenação era possível.”

Moisés voltava de uma viagem ao litoral norte de São Paulo quando recebeu ligações informando sobre a sentença. A análise do magistrado é “muito consistente” contra o ex-presidente, disse o professor da Universidade de São Paulo (USP). “Não há respostas convincentes do Lula às questões do juiz Sérgio Moro. A reação do partido é dizer que foi injusto, enquanto na democracia as pessoas que têm mais poder devem ser mais vigiadas, processadas e punidas do que qualquer outra.” Sobre a sigla que ajudou a fundar na ala intelectual, Moisés defende que haja uma explicação perante a opinião pública

Embora tenha participado da fundação do PT e dedicado vinte e cinco anos à sigla, o jurista Hélio Bicudo destacou-se nos últimos anos pelas críticas aos seus antigos correligionários. Um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o professor soube da condenação de Lula por meio de um telefonema de um velho amigo. Julgou a pena leve: “Achei a condenação até um pouco branda, mas o juiz Sérgio Moro é competente, sério e imparcial, sabe perfeitamente o que faz, e faz com técnica e prudência.”

O ex-petista se desvinculou em 2005 por causa  do escândalo do Mensalão, e não poupa críticas a Lula. Ele mostra-se cético quanto ao potencial de transformação do PT diante da possibilidade de prisão de seu principal líder. “Lula foi uma ilusão, uma esperança frustrada, e não só para mim, mas para milhões de brasileiros. O PT, a meu juízo, já desapareceu como partido que prometia um país melhor.”

Ex-governador do Rio Grande do Sul, ele apenas constatou o que já esperava, imediatamente após a publicação da notícia da condenação de Lula nas redes sociais. Moro, disse ele, estava “obrigado” a condenar o ex-presidente para satisfazer a direita e a extrema direita, que “passaram a cultuá-lo como um salvador da pátria”.

Advogado, Genro disse que a condenação de Lula não está embasada em provas e representa uma transgressão que fragiliza a democracia no Brasil. Para ele, o “oligopólio da mídia” quer fazer reformas universais pelo capitalismo rentista. “Ver a vitória dessa estratégia entristece qualquer pessoa séria”, lamentou.

A sentença de Lula, disse o ex-governador, não marcará a destruição do PT. “Muita água vai correr debaixo da ponte até prenderem Lula, se tiverem condições de fazê-lo. O Poder Judiciário, creio eu, ainda tem reservas morais e intelectuais para reagir contra a ‘exceção’.”

Ex-militante da VAR-Palmares – mesma organização da ex-presidente Dilma Rousseff – durante a oposição à ditadura, Paulo de Tarso Carneiro estava em um hotel de São Paulo com a esposa ao saber que Lula havia sido condenado em primeira instância. Nenhuma surpresa, disse Carneiro, que vê “muito mais de convicção do que de prova” na sentença do juiz Sérgio Moro.

Desconfiado dos trâmites da Justiça até agora, Carneiro não está convencido de que o ex-presidente tenha levado vantagem no tríplex ou em qualquer outro [imóvel]. “Considerando as vantagens que as empreiteiras dão a Aécio Neves, Romero Jucá e outros – e que são muito grandes – parece que a vantagem para Lula seria muito pequena, não é? Me parece evidente que alguma coisa está distorcida e não tem prova.” Quanto ao PT, “irá se engrandecer” pela atuação da militância, disse Carneiro.

O ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont não recorda exatamente em que lugar do Rio Grande do Sul estava quando soube da condenação de Lula, algumas horas após a decisão de Moro ser noticiada. Sem surpresa, segundo ele, porque a sentença estava pré-estabelecida desde o início do processo. “O processo em si é ridículo”, disse. “Ele [Sérgio Moro] precisava inventar um crime para poder condenar.”

Pont disse que a sigla vem sendo “massacrada” ao longo dos anos e questionou correligionários que se desviaram do ideal de “governar com a minoria”: “Alguns companheiros se iludiram com esse esquema de pegar dinheiro de empresas para fazer campanha, com as facilidades de entrar no jogo que a direita, a burguesia brasileira sempre fez e nunca foi pecado.” Pont defende um governo de democracia direta, com participação da população e novos mecanismos democráticos em vez da política tradicional. “Isso rapidamente passou dos acordos para a corrupção”, resumiu.

Em uma olhada rápida no celular enquanto filiava uma pessoa ao Partido dos Trabalhadores, Arlete Sampaio viu a mensagem avisando que Lula havia sido condenado a 9 anos e 6 meses de prisão por Sérgio Moro. Imediatamente, comentou com o futuro petista de carteirinha: “Olha só que absurdo que acabou de acontecer!”

Ex-vice-governadora do Distrito Federal, Arlete disse que a parcialidade de Moro é evidente. “É uma coisa incompreensível para qualquer pessoa minimamente inteligente neste país que o Lula seja condenado enquanto o Aécio Neves tem o mandato reposto, enquanto a denúncia contra Michel Temer é rejeitada na CCJ.”

Arlete disse que a crise do PT vai além da perseguição por desvios de correligionários, chega ao projeto político que a sigla representa. “A elite brasileira não aceita o projeto de inclusão social, de justiça social, e se comporta ainda como Casa-grande (…) Penso que o partido continuará com esse ideário e que o Lula continuará sendo uma das figuras centrais do PT.”

O deputado distrital Chico Vigilante (PT-DF) repousava em casa, recuperando-se de uma cirurgia recente quando soube da condenação de Lula no plantão de notícias da tevê. Ainda que o anúncio não tenha surpreendido, a sentença foi recebida com lágrimas na residência parlamentar. Afilhado do ex-presidente, o filho primogênito de Vigilante e a esposa do deputado choraram muito com a notícia. Moro, disse o petista, conduziu um “processo terminantemente político e nada jurídico”.

“Não foi para isso que lutei, não foi para ter um Judiciário parcial, um Judiciário de classe. Antigamente tinha um ditado no Brasil que dizia que quem ia para a cadeia era preto, pobre e prostituta. Agora, aumentamos um P: preto, pobre, prostituta e petista.” Sobre a possibilidade de ver o compadre preso, Vigilante disse que isso não vai desanimar o PT. Independentemente do resultado do processo, a influência do ex-presidente será mantida. Lula, disse ele, é fundamental, mas o PT não é só ele. “Nós somos milhões de petistas, tem o petista formal e tem a nação petista, que nem sequer é filiada, mas é defensora da causa. O Lula preso elege qualquer presidente da República hoje, portanto, não desanimo. Nós somos milhões de Lulas.”

O arquiteto Clóvis Ilgenfritz sentiu “uma profunda dor” ao saber da condenação de Lula. No momento em que a sentença foi anunciada, Clóvis estava presidindo uma reunião do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul. “Eu já achava que esse ‘juizeco’ ia fazer alguma coisa, porque está a comando dos americanos, a comando do crime, é um cão adestrado – eu nem quero ofender os cachorros, né? – para fazer o mal. E está fazendo.”

Candidato a deputado federal pelo PT mais votado nas eleições de 1982 – ainda que não tenha conseguido se eleger –, o gaúcho disse que o partido deve ir às ruas e atuar junto aos movimentos sociais, buscando alianças confiáveis. “Tem que saber trabalhar com seus aliados e não buscar aliados que sejam traidores, como aconteceu com o PMDB, que é uma aliança muito perigosa e a prova disso está aí. [Temos de] ir para as páginas da história, porque são coisas de quem faz política com sabedoria e alta qualidade.”

A notícia veio por um assessor da senadora Gleisi Hoffmann: “Que desgraça, o Moro condenou o Lula!” Para Carvalho, foi um trauma esperado: “É tipo a morte de alguém querido, a gente sabe que vai chegar, mas quando chega te assusta, te deixa arrasado. Foi exatamente assim.” Gilberto Carvalho, ex-ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, soube da condenação do ex-presidente durante uma visita ao gabinete da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR). Funcionário do Senado, Carvalho vai trabalhar na sede do PT com Hoffmann, recém-eleita presidente do Partido dos Trabalhadores.

Conselheiro e assessor do ex-presidente, Carvalho sente tristeza com a sucessão de “pregadas de peça” que a vida deu no companheiro nos últimos anos. “Toda essa perseguição começou logo depois que ele se curou do câncer. Depois, os dias para ele e a Marisa foram se tornando muito difíceis. A morte dela – para ele e todos nós – está muito ligada ao processo de tensão permanente com a pressão do constrangimento da perseguição, pelo medo da prisão e de ver o Lula preso.”

Mas, para ele, o PT não se resume à figura do ex-presidente, e o partido tem “uma necessidade enorme de renovação, de reencontro com a sua base, com a sua história”. Uma das figuras mais poderosas dos governos petistas no Palácio do Planalto, Carvalho faz uma mea-culpa: “Uma vez no governo, abandonamos o processo de comunicação com o povo, de conscientização. As pessoas recebem os benefícios – tipo Minha Casa, Minha Vida, ProUni –, mas não vinculavam isso ao projeto porque não eram conscientizadas (…) Portanto, o partido tem uma necessidade absoluta agora de rever suas práticas, sair da luta interna – pelo poder interno, eu diria – e ser generoso.”

O médico costuma chamar a operação Lava Jato de “operação Lava Golpe”. Ele estava em casa, em Brasília, quando soube da sentença de Sérgio Moro. Embora triste e muito desagradável, Saraiva disse que a condenação de Lula estava programada por uma “conspiração golpista” e se confirmou com a notícia da sentença. “A razão de tudo isso era tirar a Dilma do governo, atacar, perseguir e desmoralizar o PT – até no intuito de tirar a sua legenda – e condenar o Lula.”

Saraiva compara a tentativa de prisão do ex-presidente ao encarceramento do filósofo marxista Antonio Gramsci pelo regime fascista de Benito Mussolini, na Itália. “[Mussolini dizia] que aquele cérebro não podia estar livre, tinha de estar na cadeia. Então aqui é a mesma coisa – esse líder [Lula] não pode estar solto porque ele representa toda uma aspiração popular.”

O país necessita do PT, diagnostica o petista, e o partido terá vida longa mesmo com as acusações ao seu principal líder. “É o único partido de esquerda organizado no Brasil e, talvez, na América Latina. Vamos incomodar ainda mais a direita.”

Foi a convite do próprio Lula que a atual deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Dois anos depois, em 1982, foi eleita vereadora de São Paulo e, no final dessa mesma década, primeira prefeita mulher da mesma cidade, ambos os mandatos pelo PT.

Desfiliada do PT desde 1998, Erundina soube da sentença de Sérgio Moro em plena atividade parlamentar, enquanto a Comissão de Constituição e Justiça analisava o relatório da denúncia contra o presidente Michel Temer. Além de triste, a deputada ficou “em choque”: “A gente espera que nunca chegue a esse ponto. Faltaram condições objetivas para sustentar essa condenação. Nós, do PSOL, queremos a apuração completa e muito transparente e que as medidas se apliquem de forma justa a diferentes personagens.”

Mesmo criticando o presidencialismo de coalizão adotado no governo Lula, Erundina manteve a proximidade com o ex-presidente, especialmente por compartilhar com ele a origem nordestina e a trajetória pessoal cheia de dificuldades. A militante de 82 anos deseja que as próximas etapas do processo sejam apuradas de forma completa e acredita que seu antigo partido vai resistir diante da sentença de Moro. “Lula está na ofensiva, não se abate diante da adversidade, ele enfrenta e isso é muito bom. Acredito que o PT já está reagindo e não vai ceder de forma passiva, vai ter mobilização. Não acredito que vão prender o Lula.”

Ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Jair Meneguelli disse que a sentença de 9 anos e 6 meses de prisão para Lula é uma “condenação por suposição”. “Eu moro na minha casa em São Caetano do Sul, tenho uma escritura registrada em cartório, pago IPTU, luz e água, portanto esta casa é minha. Não tenho como dizer que não. Mas não conseguiram até agora mostrar um documento que tenha a assinatura do companheiro Lula e prove que ele é dono desse imóvel.”

Ao ler a notícia da decisão de Sérgio Moro no grupo de WhatsApp do PT de São Caetano do Sul, o sentimento foi de revolta. O que o tranquiliza, disse o sindicalista, são as próximas etapas do processo. A pena, confia Meneguelli, será revertida na segunda instância, assim como aconteceu com o ex-tesoureiro da sigla João Vaccari Neto.

Caso a prisão de Lula se concretize, Meneguelli reconhece que o PT será impactado, mas reagirá: “É óbvio que Lula é a figura maior do partido. Só não é maior que o partido, mas é do mesmo tamanho. Se essa catástrofe acontecer, é uma perda custosa. Mas o PT é uma organização nacional. Vamos continuar defendendo o que sempre defendemos e acreditando. Os erros serão corrigidos e, se for necessário, apresentaremos um novo programa, mas o PT não morrerá!”

Geraldo Magela estava de férias com a família no Peru quando, em um dos muitos acessos diários à internet, leu a sentença do correligionário de longa data. Segundo o ex-deputado federal, o sentimento é misto diante da notícia: há a constatação do que já esperava sobre a decisão do juiz Sérgio Moro e a surpresa por “tal absurdo” ter sido cometido. “Acredito que não temos espaço para a tristeza, nós temos é de lutar para demonstrar que de fato há uma perseguição política. Nunca nadamos a favor da maré, nunca deixamos de enfrentar problemas.”

Magela afirma que se Lula não estivesse sendo perseguido na Lava Jato, provavelmente não se lançaria candidato em 2018. E caso o ex-presidente seja impossibilitado de retornar em campanha no próximo ano, o processo será “fraudulento”, acusa. “Eu não trabalho com a possibilidade do Lula não ser candidato.”

De Gotemburgo, na Suécia, Maria Lúcia Iwanow relembrou a quarta-feira tão marcante para os petistas. Com o fuso horário adiantado em relação ao Brasil, ela soube da condenação de Lula por postagens de companheiros nas redes sociais.

A sentença, afirmou Maria Lúcia, é um arremedo de julgamento alheio ao Direito dotado de ódio de classes. O que mais a indignou, no entanto, foi o silêncio em relação à condenação de Lula. “O maior crime [de Lula] foi ousar não morrer de sede e de fome na infância (…) foi considerar que os brasileiros – todos e todas, sem exceção – têm direito à cidadania, que era privilégio apenas de uma das mais atrasadas e cruéis elites de que se tem notícia.”

Maria Lúcia não duvida da prisão de Lula. Seja qual for o resultado das instâncias seguintes, disse a petista, “a semente plantada por gente como Lula florescerá e frutificará”. “Lula é o PT e nós somos Lula! Agora e sempre. E quando Lula e nós nos formos, novas gerações terão abraçado nossos ideais e nossas lutas, corrigindo rumos, fazendo autocrítica, buscando o caminho correto para que a vida do ser humano na Terra não seja, jamais, apenas um esforço enorme para continuar vivendo.”

Aos 92 anos, o ex-preso político surpreende pela energia e clareza da fala ao ressaltar suas convicções políticas. Com bagagem sindicalista e ainda muito ativo na militância, o ex-presidente do PT na Lapa disse que seu trabalho é “divulgar o governo golpista”, referindo-se à presidência de Michel Temer.

Foi pelo noticiário da Rede Globo – que também não escapa de suas críticas – que Martinelli soube da condenação. Ele não tem dúvidas de que o veredicto de Moro visa impedir a candidatura de Lula em 2018: “A análise que eu tenho do Lula é a do ‘ai se eu voltar’. Eles [oposição] têm medo. Estão tentando, mas não vão conseguir.”

Ainda que tenha passado por profundas mudanças, ele acredita que o partido deve seguir firme: “Vários comunistas e homens de esquerda ajudaram a criar o PT. Lógico que o partido passou por transformações, não há ilusão. Nós achávamos que seria uma das coisas principais, só não aconteceu melhor até hoje – e isso falei para o Lula – porque em todos esses anos de governo o PT encheu os bolsos do PMDB e quem governou até hoje foram eles. Agora, massacraram ele, a mulher e a família.”

Atual presidente da sigla no Distrito Federal, a deputada federal Erika Kokay leu no WhatsApp a mensagem que anunciava a condenação de Lula. Pouco depois, em atividade na Câmara, a petista subiu ao plenário com correligionários para repudiar a sentença do juiz Sérgio Moro – que ela afirma ter desnudado o Estado de exceção em que vive o Brasil.

É uma aporia, disse a deputada, recorrendo à mitologia grega para comparar o veredicto de Lula à figura que personificava a impotência, a dificuldade, o desamparo e a falta de meios. Era, por isso, odiada e marginalizada por todos os homens. “É um golpe tecido por várias mãos protagonistas do obscurantismo para inviabilizar a candidatura de Lula.”

Ela acredita que o desafio do PT agora é voltar às origens e aprofundar o diálogo com os movimentos sociais. “Precisamos traduzir para os brasileiros o que representa a condenação com ausência de provas. Defender o Lula é defender a democracia!”

Airton Soares divide a trajetória de Lula em dois momentos, como a sua própria militância: o início do partido, quando saiu do MDB para fundar a sigla ao lado do ex-presidente e cedeu seu escritório político para a Sede Nacional; e após ter divergido da direção do PT ao votar em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, o que acarretou em sua desfiliação. “[Nesta fase], acompanhei a mudança de comportamento do partido com alianças espúrias que o levaram a se igualar às demais legendas partidárias, deixando-se contaminar pela corrupção”, relembrou o ex-deputado federal e hoje comentarista do Jornal da Cultura, da TV Cultura.

Apesar das críticas, Soares tem orgulho de ter sido um dos signatários da ata de Fundação do Partido dos Trabalhadores. Antes de ouvir no rádio a pena de 9 anos e 6 meses sentenciada por Sérgio Moro ao ex-presidente, Airton duvidava da condenação. As provas, afirmou, são frágeis.

A perspectiva do ex-petista sobre o PT é de que a sigla não irá resgatar a militância e a credibilidade sem que seus integrantes envolvidos em casos de corrupção sejam punidos. Para as eleições de 2018, Soares aponta dois caminhos: “[se condenado sem provas consistentes], um Lula vítima perante o povo poderá fazer com que seu candidato no PT seja eleito presidente. Se absolvido até as eleições, Lula será um candidato muito difícil de ser batido nas urnas”, profetizou.

Paulo Frateschi inicia a conversa falando sobre o orgulho de ter sido um dos signatários da fundação do PT no Colégio Sion, ao lado de Lula: “Conforme a gente fica velhinho, fica meio sentimental”, disse o ex-secretário de Organização do PT, aos 67 anos.

Foi no Instituto Lula, durante uma das reuniões de organização das saídas do ex-presidente pelo Nordeste, que Frateschi soube da condenação. A sentença, afirmou, foi como “um soco na boca do estômago”.

Com críticas à “falta de escrúpulos” do juiz Sérgio Moro, Frateschi disse que pode prever a prisão de Lula, mas não consegue fazer um prognóstico sobre o futuro do PT se isso acontecer. “São muitos fatores a serem considerados”, reflete. Se não for Lula o candidato do partido em 2018, não existe plano B. “De qualquer jeito ele vai fazer campanha. Vamos dar um jeito dele participar, onde ele estiver, em qualquer circunstância. Se houver um outro candidato, enfraquece nosso projeto. Hoje o negócio é defender o Lula e dar ao povo a opção para votar nele.”

Plenária de fundação do PT no Colégio Sion. Olívio Dutra (primeiro à esquerda, sentado na mesa), sobre o futuro do partido: “Nem mesmo o Lula pode ser a saída. Não é apenas uma pessoa que tem que retomar e requalificar a relação com os movimentos sociais.”Plenária de fundação do PT no Colégio Sion. Olívio Dutra (primeiro à esquerda, sentado na mesa), sobre o futuro do partido: “Nem mesmo o Lula pode ser a saída. Não é apenas uma pessoa que tem que retomar e requalificar a relação com os movimentos sociais.”FOTO: JUCA MARTINS
 
Para esta reportagem, colaborou a jornalista Kalinka Iaquinto.
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